Vítima de violência doméstica não é só quem apanha. Dentro de casa o medo faz nascer outra vítima: a criança que assiste a tudo quieta. Viver com medo o tempo todo destrói o sentimento de segurança e estraga a infância. Acabar com essa rotina é o único jeito de defender a mulher e oferecer paz aos filhos.
O impacto do medo na rotina dos filhos
Ver violência dentro de casa muda a cabeça e o sentimento da criança. Ela não precisa apanhar para ser impactada. A ameaça faz o pavor virar rotina. O barulho da chave na porta no fim do dia, um tom de voz mais alto ou o choro escondido no quarto viram gatilhos de puro susto.
Esse medo diário pesa no comportamento. Na escola, a criança perde o foco, a nota despenca e ela se isola dos colegas. Em casa, fica em estado de alerta o tempo todo, achando que o próprio lar é um lugar perigoso.
Além disso, ver briga e agressão altera a ideia de afeto e respeito. Sem a referência de uma casa em paz, os mais novos acabam achando que sentir dor e ser controlado é algo normal. Na vida adulta, a história costuma se repetir. Meninos que viram a mãe ser agredida podem virar agressores. E meninas podem aceitar relacionamentos abusivos por achar que é assim mesmo.
O que mostram os dados do DataSenado
O tamanho desse problema aparece claro nos números da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. O levantamento mostra que 70% das mulheres agredidas no último ano contaram que havia gente por perto na hora da agressão. E os filhos são quem mais assiste a tudo.
A pesquisa mostra uma sensação de medo espalhada pelo país: 75% das brasileiras dizem que a violência contra a mulher aumentou. Como a maioria dos casos acontece dentro de casa e é praticada pelo companheiro ou ex-companheiro, o local que deveria proteger as crianças vira a própria fonte do perigo.
O estudo explica também por que muitas mães demoram para denunciar. O medo pelo bem das crianças pesa muito. Ameaças de tomar a guarda dos filhos e o pavor de colocá-los em risco ainda maior na hora da separação fazem a mulher aguentar o sofrimento para tentar proteger a família.
Outro dado triste é a omissão dos vizinhos e parentes. Em apenas 29% dos casos em que um adulto viu a agressão, alguém se meteu para ajudar. Essa falta de atitude só aumenta a ideia errada de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, deixando a mãe e as crianças abandonadas no isolamento.
A decisão de dar um basta e a saúde dos pequenos
Na realidade, o ponto de virada para muitas mães é justamente quando percebem o sofrimento extremo dos filhos. Aquela ideia antiga de “aguentar tudo para manter a família unida” perde a força quando o filho tenta entrar na frente para defender a mãe ou quando começa a ter pesadelos e crises de ansiedade.
Pesquisadores do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), formado por especialistas da USP, explicam que a criança exposta a essa rotina passa pelo chamado estresse tóxico. O corpo dela vive sob alerta, jogando uma carga alta de cortisol no organismo o tempo todo.
Estudos sobre o cérebro das crianças mostram que esse estresse prejudica a memória e o aprendizado na escola. Além disso, traz problemas no corpo que os médicos não acham causa física, como dores de cabeça constantes, crises de ansiedade e até voltar a fazer xixi na cama.
Canais de denúncia e acolhimento em Arcos
Prestar atenção em mudanças de comportamento (como nota caindo na escola, isolamento, agressividade do nada ou xixi na cama) é o primeiro passo para ajudar. Se você notar esses sinais ou souber de agressões, acione a rede de ajuda:
§ Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): Ligação gratuita, anônima e funciona 24 horas. Orienta sobre direitos, abrigos e como se proteger com os filhos;
§ Ligue 190 (Polícia Militar): Para emergências, quando a briga ou agressão estiver acontecendo na hora;
§ Conselho Tutelar: Órgão para proteger os direitos de crianças e adolescentes. Deve ser chamado quando houver suspeita de violência em casa;
§ DEAM e Defensoria Pública: Para fazer o boletim de ocorrência e pedir medidas protetivas urgentes (como tirar o agressor de casa e resolver a guarda dos filhos). Em Arcos, a Delegacia da Mulher fica na Rua Tenente Ribeiro, nº 228, no Centro (perto da Praça Floriano Peixoto), com telefone (37) 3351-2084;
§ CRAS e CREAS: Postos da Assistência Social que dão apoio com psicólogos e assistentes sociais para a família recomeçar a vida. Acompanhamento psicológico para mães e filhos é essencial para a reconstrução emocional.
“Em briga de marido e mulher se mete a colher, sim!”
Cada vez que uma mãe sofre, crianças perdem a paz e o futuro fica em risco. Romper esse ciclo exige coragem da vítima, mas também exige atitude de quem está em volta. Se você conhece alguém nessa situação, ligue agora para o 180.
Violência doméstica não é problema privado. Denunciar, apoiar e acolher são gestos que salvam vidas. Proteger a mãe é proteger os filhos, e proteger os filhos é garantir que o amanhã não seja feito de medo, mas de esperança. DENUNCIE!
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