Ao contrário das formas invisíveis de abuso, como a violência psicológica, sexual e patrimonial, a violência física deixa marcas que todos podem ver. No entanto, pensar que a agressão acontece de repente, com um golpe forte, é um mito perigoso.
Como falamos ao longo desta série, a agressão física quase nunca começa o ciclo da violência. Ela acontece depois de um processo que inicia com ofensas, isolamento, controle do dinheiro e chantagens emocionais.
O primeiro sinal físico pode ser um puxão de cabelo durante uma discussão ou um aperto no braço para tentar impedir que a mulher se afaste. Às vezes, um objeto é jogado contra a parede ou acontece um empurrão. Essas atitudes são seguidas de um pedido desesperado de desculpas.
Em algum momento, o agressor culpa o cansaço do trabalho, o consumo excessivo de bebida e até o comportamento da própria mulher. Isso cria a falsa ideia de que aquilo foi só um incidente isolado que não vai acontecer de novo. No entanto, sem qualquer tipo de mediação, essas situações ficam mais frequentes e graves.
O que mostram os dados do DataSenado
Continuamos observando os dados da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo DataSenado junto com o Observatório da Mulher contra a Violência, em novembro de 2025. Entre as mulheres que disseram ter sofrido violência doméstica ou familiar causada por um homem, 81% relataram violência física. Esse percentual é o maior da série histórica do levantamento para esse tipo de violência. Em 2023, era 77%.
A pesquisa também mostra que 27% das brasileiras disseram já ter sofrido violência doméstica ou familiar causada por um homem ao longo da vida. Nos 12 meses antes da pesquisa, o percentual foi de 4%. Esse é o menor índice da série histórica desde 2005. Mesmo assim, o levantamento estima que milhões de brasileiras passaram por algum episódio de violência no período.
Os números não querem dizer que a violência parou de ser um problema. Pelo contrário. O próprio levantamento mostra que 34% das mulheres passaram, nos 12 meses anteriores, por pelo menos uma das 19 situações de violência pesquisadas.
O que a lei prevê
A lei brasileira é rígida sobre esse assunto e garante proteção real para a vítima. O Artigo 7º da Lei Maria da Penha define a violência física como qualquer ato que fira o corpo ou a saúde da mulher.
Para a Justiça, não importa a gravidade da lesão. Também não importa se o ato deixou marcas visíveis na pele. Um episódio já é suficiente para acionar os mecanismos de proteção. Depois da denúncia, o juiz pode mandar o agressor sair de casa imediatamente. Ele também pode proibir qualquer tipo de aproximação ou contato com a vítima e seus familiares.
Onde buscar socorro e proteção
Nenhuma mulher precisa carregar esse fardo sozinha. Para quem precisa de ajuda imediata, existem caminhos bem definidos de proteção:
· Ligue 190. Use este número em emergências e situações de flagrante ou ameaça imediata. Chame a polícia militar na hora.
· Atendimento de Saúde no SUS: Hospitais e postos de saúde oferecem atendimento médico de urgência e curativos. Nesses lugares, a mulher recebe o suporte psicológico de que precisa. Esses locais também atendem casos de emergência em cidades que não têm um posto do IML para fazer o exame de corpo de delito.
· Ligue 180. A Central de Atendimento à Mulher oferece orientação gratuita e anônima sobre procedimentos de segurança e acolhimento.
· DEAM e Defensoria Pública registram a ocorrência e pedem as medidas protetivas urgentes.
Quem está em Arcos pode procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. Localizada na Rua Tenente Ribeiro, nº 228, no Centro, na Praça Floriano Peixoto. Também é possível entrar em contato pelo telefone (37) 3351-2084.
Busque ajuda
Se você ou alguém que conhece está nessa situação, não hesite em procurar a rede de proteção. Promessas de mudança que aparecem logo depois de uma agressão costumam ser a armadilha mais forte para manter a vítima presa ao ciclo de violência.
Lembre-se sempre de que o afeto verdadeiro não agride. Ele não machuca o corpo e não cala ninguém usando a força.