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DO COMPUTADOR AO FEED: COMO MUDOU O CONSUMO DE NOTÍCIAS ENTRE OS JOVENS

Da televisão e dos portais acessados pelo computador às redes sociais e ao celular: a forma de encontrar informação mudou, enquanto a busca por conteúdo relevante e confiável aparece entre os participantes.

Créditos: Priscila Gabriele

Em 2007, os jovens de 15 a 29 anos consumiam notícias pela televisão, rádio, jornais impressos, revistas e pela internet, acessada principalmente pelo computador. Portais como UOL, Terra e Yahoo estavam entre os caminhos para chegar à informação. O Orkut era um espaço de discussão, enquanto blogs e revistas especializadas ajudavam a acompanhar assuntos específicos, como cultura pop, jogos e tecnologia.

Era um cenário em que o jovem precisava, muitas vezes, ir até a informação. Ligar a televisão, ouvir o rádio, abrir um jornal ou acessar um portal fazia parte do caminho para encontrar as notícias.

Quase duas décadas depois, o caminho mudou. A informação passou a caber na palma da mão e pode aparecer na tela enquanto o jovem está fazendo qualquer outra coisa: assistindo a um vídeo, conversando com amigos ou simplesmente navegando pelas redes sociais.

Mas o que mudou no consumo de notícias pelos jovens desde então?

Para compreender esse comportamento, uma pesquisa em Arcos e região ouviu 22 participantes com diferentes idades e experiências de consumo de notícias. Entre eles, 11 têm entre 18 e 24 anos (50%), 10 estão na faixa de 25 a 29 anos (45,5%) e um tem entre 15 e 17 anos (4,5%). Treze são mulheres (59,1%) e nove são homens (40,9%). Metade dos participantes estuda e trabalha.

O levantamento mostra que, apesar das mudanças na forma de acesso, as notícias continuam fazendo parte da rotina da maioria dos participantes. Nove jovens (40,9%) afirmaram consumir notícias todos os dias e outros nove (40,9%) disseram acompanhar algumas vezes por semana.

Gráfico de respostas do Google Formulários. Título da pergunta:  4 - Como você consome notícias?  
  Com que frequência você acompanha notícias?  . Número de respostas: 22 respostas. Fonte: pesquisa realizada pela autora.

A mudança observada nesta pesquisa está no ambiente em que os jovens entram em contato com as notícias. Para 19 participantes (86,4%), o Instagram é um dos caminhos utilizados para encontrar notícias. O Google aparece em seguida, citado por 13 jovens (59,1%). Os participantes podiam indicar mais de um canal, por isso os percentuais não somam 100%.

Gráfico de respostas do Google Formulários. Título da pergunta:   5. Onde você encontra notícias?  . Número de respostas: 22 respostas.Fonte: pesquisa realizada pela autora. A pergunta permitia múltiplas respostas.

A notícia, portanto, muitas vezes chega ao jovem pelas redes sociais, sem que ele precise acessar diretamente um portal para iniciar o contato com a informação.

A notícia que chega

Esse comportamento aparece também nas experiências dos jovens ouvidos pela reportagem. Nem sempre existe uma busca intencional por notícias. Em alguns casos, elas simplesmente surgem enquanto outras atividades acontecem nas redes sociais.

Aos 17 anos, Isadora afirma que não costuma procurar informações sobre o que acontece em Arcos e região. Ela utiliza o Instagram e diz que seu contato com notícias acontece principalmente quando elas aparecem durante a navegação. Entre os conteúdos que despertam sua atenção estão os de entretenimento.

O comportamento também aparece na fala de Mateus, de 16 anos. Ele afirma que, na maioria das vezes, procura informações, mas também relata que, muitas vezes, as notícias chegam até ele. O estudante acompanha televisão, G1, Instagram e TNT Esportes e diz consumir principalmente conteúdo digital.

 Maria Clara, de 18 anos, descreve esse comportamento:

“Eu procuro por notícias de assunto que me interessam, e que me chamem atenção, mas sempre vejo notícias quando estou navegando, quando elas aparecem para mim, eu costumo parar para ler.”

Nesse ambiente, a notícia passa a disputar espaço com vídeos, mensagens, entretenimento e outros conteúdos. Para alcançar esse público, portanto, não basta apenas estar disponível. É preciso conseguir interromper, ainda que por alguns segundos, aquilo que já estava sendo consumido.

O que faz o jovem parar?

Com a quantidade de conteúdos que aparecem diariamente nas telas, a notícia precisa conquistar a atenção antes de ser lida ou assistida. Na pesquisa realizada com os participantes, o principal fator apontado para fazer alguém parar diante de uma notícia foi o próprio assunto: 20 jovens, ou 90,9%, disseram que precisam se interessar pelo tema. O título chamativo aparece logo depois, citado por 19 participantes, ou 86,4%.

Gráfico de respostas do Google Formulários. Título da pergunta:   7. O que faz você parar para ler ou assistir a uma notícia?  . Número de respostas: 22 respostas.Fonte: pesquisa realizada pela autora. A pergunta permitia múltiplas respostas.

O resultado ajuda a compreender que o formato, sozinho, não determina o interesse. Uma notícia pode aparecer no meio do feed, mas precisa apresentar algo que faça o jovem querer saber mais.

Para Miguel, 18 anos, não existe um único formato capaz de tornar uma notícia interessante. Ele acompanha informações pelo TikTok e pelo YouTube e afirma:

 “Todas as formas são boas. O que é mais importante, em minha opinião, é o conteúdo.”

Maria Clara, 18 anos também aponta a importância de uma apresentação que desperte atenção. Ela afirma preferir notícias “mais rápidas, diretas, por vídeo curto” e publicações com imagem acompanhadas de uma manchete chamativa.

A preferência por conteúdos mais objetivos, porém, não significa necessariamente falta de interesse por assuntos que exigem maior aprofundamento. Miguel conta que, quando o tema é mais complexo, procura pesquisar mais.

Para a psicóloga Lívia Mendes, o excesso de informação ajuda a explicar a busca dos jovens por conteúdos mais rápidos e objetivos.

“Hoje os jovens estão expostos a uma quantidade muito grande de informações o tempo todo. É uma notícia, uma mensagem, um vídeo, rede social, propaganda, então naturalmente, existe uma tendência de buscar informações de forma mais rápida e objetiva.”

Mas a psicóloga faz uma ressalva importante:

“Eu não acho que isso significa que os jovens não tenham interesse por assuntos mais profundos. Muitas vezes, o conteúdo curto é justamente a porta de entrada.”

Quando algo chama a atenção e desperta curiosidade, explica, o jovem pode procurar depois uma informação mais completa.

Nesse cenário, o desafio não é apenas conseguir alguns segundos de atenção, mas criar um conteúdo capaz de transformar esse primeiro contato em interesse pela informação.

Entre a rapidez e a confiança

Parar diante de uma notícia não significa necessariamente acreditar nela. Com a velocidade com que informações circulam pelas redes sociais, os jovens entrevistados demonstram que a confiança depende, muitas vezes, da fonte e da possibilidade de verificar aquilo que foi publicado.

Aos 18 anos, Miguel afirma que não confia automaticamente nas notícias que encontra nas redes sociais. Quando o assunto é mais complexo, procura pesquisar mais a fundo antes de formar sua opinião.

Maria Angélica, de 24 anos, também diz não confiar nas informações encontradas nas redes. Para ela, a notícia pode aparecer enquanto navega, mas a confirmação precisa vir de uma fonte considerada confiável.

“Eu gosto de checar a veracidade em sites de notícias confiáveis”, afirma.

Maria Clara, de 18 anos, participante da pesquisa, segue comportamento semelhante. Ela conta que não confia em qualquer página de notícias e que procura veículos que considera confiáveis e verificados.

“Não confio em qualquer página de notícias, somente as verificadas e que são dos jornais, como a Globo, Jornal Nacional, sempre confiro antes”, afirma.

Entre os estudantes entrevistados na Escola Estadual Dona Berenice de Magalhães Pinto, Mateus, 16 anos, também demonstra preocupação com a origem da informação. Para ele, a confiança depende da fonte. Quando precisa verificar se uma notícia é verdadeira, procura sites oficiais do governo e busca saber de onde veio a informação.

Os relatos mostram que o primeiro contato com a informação pode acontecer nas redes sociais, mas a busca por confirmação pode levar o jovem para outros espaços. O feed apresenta a notícia; a fonte ajuda a decidir se ela merece confiança.

Para o jornalista Jaime Pedrosa, esse cenário representa um dos desafios atuais da imprensa.

“Um ponto que nós da imprensa precisamos considerar é a concorrência desleal com a rede social, o que costumo chamar de ‘jornalismo de rede social’.”

Segundo Jaime, qualquer pessoa pode publicar uma foto ou vídeo nas redes sem necessariamente ter responsabilidade pela checagem ou pela contextualização da informação.

O jornalista observa ainda que a falta de contexto leva os próprios usuários a buscar respostas nos comentários.

 “Você observa que nos comentários ficam um monte de pessoas fazendo as perguntas-chaves: o que aconteceu? Onde aconteceu? Com quem aconteceu?”

A situação evidencia um dos desafios do jornalismo profissional: em um ambiente em que a informação circula rapidamente, não basta publicar primeiro. É preciso apurar, explicar e contextualizar.

O que os jovens querem do jornalismo

Se o caminho até a notícia mudou, as expectativas em relação ao jornalismo também revelam uma demanda por proximidade. Nas entrevistas, os jovens não pedem apenas conteúdos mais rápidos. Eles falam sobre assuntos que fazem parte da própria realidade e sobre a possibilidade de participar da produção da informação.

Para João Gabriel, 17 anos, o jornalismo local poderia dar mais espaço às questões que envolvem a juventude. Entre as sugestões estão mais oportunidades de emprego para os mais novos, projetos e participação dos jovens na cidade.

Maria Clara, 18 anos, também defende uma aproximação maior com esse público. Para ela, os veículos poderiam investir nas redes sociais, em vídeos curtos e conteúdos interativos, mas também abrir espaço para que os próprios jovens deem opiniões e contem suas histórias. Ela defende que as notícias abordem temas como educação, primeiro emprego, cultura, tecnologia e oportunidades.

A ideia também aparece na fala de Maria Angélica, de 24 anos, que considera importante ter mais jovens trabalhando nos meios de comunicação e que os veículos respeitem os interesses das diferentes faixas etárias. Para ela, as notícias voltadas à juventude precisam ser “seguras, verdadeiras e produzidas por profissionais”.

A psicóloga Lívia Mendes explica que essa aproximação passa pela identificação. Segundo ela, o jovem tende a se envolver mais quando consegue relacionar a informação com a própria vida, com o que pensa ou com aquilo que está vivendo. Para os veículos, portanto, conhecer esse público é fundamental para estabelecer uma conexão sem abandonar a responsabilidade jornalística.

Mais do que encontrar uma fórmula única para falar com esse público, as entrevistas revelam participantes diversos, que valorizam informação confiável, assuntos relevantes e espaço para participar.

Um novo caminho para a notícia

Entre o computador de 2007 e o celular que hoje concentra informação, entretenimento e comunicação, mudou também a maneira como a notícia encontra seu público. Entre os participantes da pesquisa, os dados e as entrevistas indicam que o consumo de informação permanece presente na rotina, mas muitas vezes o primeiro contato com as notícias acontece pelas redes sociais.

O desafio para o jornalismo local não parece estar apenas em disputar alguns segundos de atenção. Está em transformar esse primeiro contato em interesse, confiança e identificação. Para isso, a notícia precisa ser clara e atual, mas também relevante para quem a recebe.

No meio de tantos conteúdos que disputam espaço na tela, talvez a questão não seja apenas fazer o jovem parar para ver uma notícia. É fazer com que ele encontre nela algo que valha a pena compreender, compartilhar e, principalmente, participar.

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