O asfalto quente da Praça de Esportes de Pimenta-MG testemunhou, no último domingo, dia 3 de maio, mais do que uma competição de alto nível técnico. Para a comitiva que saiu de Arcos, o IX Campeonato de Capoeira de Pimenta foi a validação de um trabalho diário que transforma esforço invisível em medalhas reluzentes. O Grupo Negro Arte Capoeira, através do projeto Avante Capoeira — sediado na Casa de Cultura —, carimbou sua presença no evento trazendo na bagagem conquistas em quase todas as frentes: medalhas de ouro, prata, bronze e o troféu de 5º lugar geral em pontuação entre inúmeras equipes da região.
Por trás do resultado histórico comandado pelo Graduado Bisteco (Leandro Cleber Ribeiro), há uma rotina que ignora o romantismo e foca na disciplina pura. Quem vê o peso do metal no peito dos atletas não enxerga os treinos exaustivos de segunda, quarta e sexta-feira, divididos entre o espaço da Casa de Cultura e as tarefas levadas para fazer em casa. "Quem quer conquistar algo tem que treinar mais, dedicar mais. Foi esse nosso objetivo: treino, treino e treino. E não vamos parar", crava o treinador.

GRADUADO BISTECO
A técnica que respeita e encanta
O campeonato em Pimenta exigiu precisão. Com arbitragem contratada e critérios rigorosos, o diferencial dos capoeiristas de Arcos foi a linhagem técnica herdada do Mestre Lelê, de Carmo da Cachoeira. Bisteco explica que a proposta do grupo foge do combate desordenado; preza-se pelo jogo plástico, inteligente e limpo.
"Nossos capoeiristas têm uma técnica diferente, avançada, respeitando o adversário e pondo em prática tudo o que aprendemos com o nosso Mestre Lelê, que bate muito nessa tecla de não jogar a capoeira de qualquer jeito, mas sim uma capoeira técnica, fácil e bonita. Por isso tivemos esse resultado maravilhoso, nunca visto em Arcos na área da capoeira: tantas medalhas."
Essa beleza técnica se traduziu em pódios que atravessaram gerações. A lista de medalhistas reúne nomes como Cauã Flexa, Ana Manchinha, Rafael, Rafael Fu, Lucas, Davi Pelezinho, Daniela Dedicada e João. São atletas de 6, 7, 9, 10, 12, 15, até adultos de 40 e 43 anos.

ANA CLARA - MANCHINHA

CAIAM - DE FLEXA

DANIELA DEDICADA

DAVI

JOÃO

LUQUINHA

PYETRO PELEZINHO
Para o comandante do projeto, a maior vitória não foi tática, foi humana. "Foi muita emoção, porque foram crianças que ainda nem têm graduação e deram o seu melhor. O que mais me deixou feliz foi um aluno de 42 anos que me agradeceu por nunca ter ganho uma medalha na vida. Eu disse para ele que era possível; ele foi lá e trouxe. Esses campeões são a minha inspiração", relata Bisteco, visivelmente comovido.

RAFAEL FU
Entre o ringue e a realidade social
Manter um projeto social vivo é um exercício de resistência diária que vai além da ginga. As dificuldades financeiras e a escassez de material para treino são obstáculos fixos na rotina. Desta vez, a viagem até Pimenta foi viabilizada pelo suporte da Secretaria de Cultura, através da Secretária Municipal de Esportes, Cultura, Lazer e Turismo, Maria Eduarda Rodrigues Mateus Costa, que garantiu o fretamento do ônibus para a equipe.
Quando questionado sobre as dificuldades encontradas no dia do torneio, o Graduado é enfático: "No campeonato não tivemos problemas, pois saímos daqui focados. Nenhum obstáculo que tivesse lá ia nos parar. Se teve, não vimos, porque fomos para vencer".
No entanto, a luta real acontece fora do tatame. Bisteco defende que o esporte precisa do envolvimento ativo da comunidade e do poder público para ocupar o tempo da juventude de forma saudável, arrancando-os do isolamento das telas e do risco das ruas.
"Temos esse espaço na Casa de Cultura hoje. Faltam algumas coisas para a gente, mas, por enquanto, estamos no caminho. Se todos tivessem esse objetivo de projeto, ou até cedessem espaço, dava para trabalhar mais com as crianças, jovens e adolescentes. Para isso, a somatória da sociedade tem que estar junto. Meu foco não é só formar capoeirista, mas sim formar cidadão para o dia de amanhã. Ele é capoeirista, mas pode ser advogado, médico, professor ou mestre de capoeira, porém com uma mente saudável, um cidadão formado para o mundo."
O mega batizado em agosto
Nem só de vitórias unânimes se faz o espírito de equipe. O próprio Leandro "Bisteco" faturou a medalha de ouro na categoria de graduados e avançou para disputar o cinturão da noite. A final não veio, mas o momento serviu para consolidar a união do grupo. "Não foi dessa vez. Essa foi a parte em que o coração das crianças bateu mais forte, mas fiquei feliz vendo-as vibrando por mim do mesmo jeito que vibramos uns pelos outros. Amor de equipe."
Sem tempo para descanso, o Grupo Negro Arte — que hoje estende seus padrões técnicos por 14 cidades — já mira o próximo grande objetivo no calendário: o Mega Batizado programado para o dia 16 de agosto de 2026. Após reunir comitivas de mais de nove cidades no ano passado, a expectativa para este ano é ainda maior, com a promessa de trazer a Arcos um mestre de renome nacional.
Para quem deseja fazer parte dessa trajetória, o recado está dado. As aulas acontecem na Casa de Cultura às segundas, quartas e sextas-feiras, recebendo alunos a partir dos 4 anos de idade. Como define o próprio treinador, o espaço entrega saúde física, mente forte e acolhimento. Aos empresários e cidadãos que desejam apoiar a continuidade dessas vitórias, o projeto ressalta que as portas estão abertas para doações de materiais de treino diretamente na sede das atividades.