O Congado de Arcos viveu um dos dias mais marcantes de sua história cultural nesta quarta-feira, 25 de março. A cidade se despediu de Gislene Aparecida Miguel, a Capitã Didi, liderança do terno Congo Sereno e uma das maiores referências do Congado em Minas Gerais.
Filha de congadeiros, Didi construiu uma trajetória profundamente ligada à fé e à tradição. Iniciada no Congado ainda aos 3 anos de idade, seguiu os passos dos pais e assumiu, ao longo da vida, a missão de manter viva uma herança cultural que atravessa gerações. Após a perda dos pais, foi ela quem conduziu o Congo Sereno com firmeza, espiritualidade e dedicação, tornando-se símbolo de resistência e devoção.
Sua fé era o centro de tudo. Em vida, costumava afirmar que o Congado ia além da cultura — era religião, devoção e forma de agradecer aos santos por todas as graças recebidas. E assim viveu: cantando, rezando e emocionando todos ao seu redor.
Homenagens marcadas por fé e emoção
O velório foi transformado em um verdadeiro ato de fé e reconhecimento. Em um dos momentos mais marcantes, o Terno Congo Sereno, do qual Didi era capitã, adentrou o espaço com batuques e cânticos. A homenagem carregada de emoção relembrou a importância dela para cada integrante — muitos deles formados e guiados por sua liderança. Entre os presentes, seus próprios filhos, que também integram o terno, participaram ativamente, tornando o momento ainda mais comovente.

Na sequência, o Terno Moçambique, liderado por um de seus filhos, chegou em cortejo e prestou uma segunda homenagem. Os cantos ecoaram como despedida e reverência, emocionando familiares, amigos e toda a comunidade presente.

Após as homenagens, o corpo foi conduzido em cortejo de Congado até a Igreja Nossa Senhora do Rosário, um dos espaços mais simbólicos da fé congadeira em Arcos. Lá, o padre Kerol Reis de Paula, visivelmente emocionado, conduziu uma homenagem especial e concedeu a última bênção à capitã — uma mulher que sempre esteve presente na igreja, louvando com devoção a Nossa Senhora do Rosário.
O cortejo seguiu então para o Cemitério Municipal, onde, entre novos cânticos e manifestações de fé, Didi foi sepultada sob aplausos, lágrimas e profundo respeito.
Reconhecimento que ultrapassa Arcos
A partida de Didi gerou comoção não apenas em Arcos, mas em todo o estado. Diversos ternos de Congado de Minas Gerais manifestaram publicamente seu pesar, reconhecendo a importância de sua trajetória para a cultura congadeira.
A Associação do Congado de Nossa Senhora do Rosário também se manifestou, destacando a perda de uma grande líder e pedindo orações por toda a comunidade.
A Paróquia Nossa Senhora do Rosário, por meio do padre Kerol Reis, reforçou o legado espiritual deixado por Didi, lembrando sua presença constante e sua fé inabalável.
Em nível estadual, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais também publicou nota oficial de pesar, destacando que sua presença seguirá viva “nos cantos, nos toques e nos caminhos do Rosário”, reconhecendo sua contribuição para a cultura mineira.

Um legado que permanece vivo
Didi deixa filhos, netos e uma comunidade inteira que hoje chora sua partida, mas também assume o compromisso de seguir adiante. Seu legado permanece vivo — nos passos dos ternos, nos tambores, nas vozes e, principalmente, na fé.
Arcos não perde apenas uma capitã. Perde uma guardiã da tradição.
Mas sua história continua sendo contada — em cada canto, em cada oração e em cada congadeiro que segue mantendo viva a cultura que ela tanto amou.
Ricardo Fonseca