Patrimônio cultural de Arcos, a tradicional Corporação Musical Nossa Senhora do Carmo levou um pedido de socorro ao plenário da Câmara na noite desta segunda-feira (13). Fundado em 1908, o grupo expôs problemas graves de estrutura e falta de dinheiro que hoje colocam em risco a continuidade de suas atividades.
A diretoria usou o espaço da Tribuna Livre para apresentar uma prestação de contas detalhada. No entanto, o momento serviu principalmente para fazer um alerta urgente aos vereadores. Segundo a presidente Celeste Marburg, a vice-presidente Maria Amélia e o maestro Pedro, a banda vive uma crise financeira e estrutural que ameaça os ensaios.
Hoje, a corporação atende 45 crianças e jovens, a partir de 9 anos de idade, oferecendo aulas de música de graça na cidade.
Contas apertadas e orçamento no limite
De início, a diretora mostrou como usou uma emenda parlamentar impositiva de R$ 150 mil, recebida em 2024. A verba foi toda revertida na compra de novos instrumentos de sopro e percussão, além de estantes e uniformes para os alunos.
O problema maior está nas contas do dia a dia. A subvenção anual repassada pela prefeitura é de R$ 40 mil, mas quase todo esse dinheiro (R$ 38,4 mil) é usado para pagar o regente por 10 meses de trabalho.
“Sobram apenas R$ 1.600 para cobrir todas as despesas do ano inteiro, o que inclui gastos com contador, internet, produtos de limpeza, papelaria e manutenção de rotina”, explicou a diretoria aos parlamentares.
Ensaios improvisados na calçada e problemas de saúde
O maior drama enfrentado pela banda é o estado da sede, que funciona no prédio da antiga usina elétrica da cidade. O imóvel sofre com infiltrações, mofo severo e vazamentos constantes.
De acordo com o maestro Pedro, a situação do espaço afeta diretamente a saúde dos alunos. “Temos alunos alérgicos e asmáticos que sofrem muito com a umidade no local. Eu preciso chegar meia hora antes de cada ensaio só para abrir todas as janelas e tentar ventilar o ambiente”, relatou.
Para piorar, a falta de espaço impede que o grupo ensaie completo. Sem área física para todo mundo dentro do prédio, os músicos precisam improvisar. “Por falta de espaço, nossos percussionistas muitas vezes precisam tocar do lado de fora da sede, posicionados na calçada da rua, acompanhando o resto do grupo olhando pelas janelas”, revelou o maestro.
O que ficou decidido
Após ouvirem o relato, os vereadores presentes prometeram cobrar soluções rápidas da prefeitura.
Ficou acertado que os parlamentares vão enviar um ofício conjunto, em caráter de urgência, para a Prefeitura e para a Secretaria Municipal de Cultura. No documento, eles pretendem exigir:
· Reforma estrutural imediata: Uma intervenção no prédio histórico para acabar com as infiltrações, o mofo e os problemas de encanamento;
· Espaço provisório para ensaios: A cessão temporária de um local maior para que os ensaios gerais aconteçam com segurança;
· Criação de um museu: A proposta de transformar a sede atual, após a reforma, em um espaço de preservação e museu definitivo, protegendo o acervo de partituras raras do século XIX e os instrumentos centenários.
Uma história de resistência que atravessa gerações
A ligação da Corporação Musical Nossa Senhora do Carmo com Arcos vem de longe. A relevância da banda para a cidade é tão grande que ela virou utilidade pública oficial no ano 2000 e até tema de mestrado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que estudou o impacto social do projeto. Para completar, o próprio imóvel onde eles ensaiam é tombado pelo patrimônio histórico municipal desde 2002, herança da época em que funcionava ali a antiga Distribuidora Geral de Energia de Arcos.
Mas o que segura a banda de pé é quem faz parte dela. O maior exemplo é Geraldo Nunes Pereira, o “Senhor Pixano”.
Prestes a completar 91 anos, ele toca seus pratos de percussão há 76 anos sem interrupções. Pixano é uma figura conhecida nas ruas de Arcos, sempre visto ouvindo seu radinho de pilha no portão de casa e marcando presença firme nos ensaios. No ano passado, sua trajetória de dedicação virou tema de uma homenagem que emocionou a cidade. E que reforça o motivo pelo qual essa história centenária não pode se perder.