Esquecer onde deixou o celular ou a chave é comum. Mas quando os lapsos de memória começam a ser constantes ou interferem na vida diária, especialmente entre pessoas na faixa dos 40 e 50 anos, isso pode ser um sinal de alerta para algo mais sério — e merece investigação.
Memória: o que a ciência nos ensina
O cérebro humano possui cerca de 86 bilhões de neurônios, e a memória depende de conexões extremamente precisas entre eles. Pesquisas mostram que pequenas mudanças na velocidade de processamento podem surgir a partir dos 30 anos, influenciadas por fatores como estresse, privação de sono e estilo de vida.
No entanto, perda de memória frequente ou progressiva não é considerada parte normal do envelhecimento nessa faixa etária, principalmente quando passa a prejudicar atividades do dia a dia.
Sinais de alerta: quando prestar atenção
Entre os 40 e 50 anos, alguns sintomas merecem avaliação médica:
· Esquecer compromissos importantes com frequência
· Repetir perguntas na mesma conversa
· Dificuldade para planejar ou resolver problemas rotineiros
· Perder objetos em locais incomuns
· Dificuldade crescente de concentração
· Mudanças de humor associadas às falhas de memória
Estudos indicam que pessoas que relatam queixas de memória persistentes têm maior risco de desenvolver alterações cognitivas no futuro, o que reforça a importância de investigar precocemente.
Alzheimer precoce: o que se sabe
O Alzheimer é a forma mais comum de demência e costuma surgir após os 65 anos. Porém, existem casos de Alzheimer de início precoce, com sintomas aparecendo entre os 40 e 50 anos. São situações raras, representando menos de 5% dos diagnósticos, mas reais.
Pesquisas também mostram que alterações cerebrais associadas ao Alzheimer podem começar muitos anos antes dos sintomas se tornarem evidentes. Isso não significa que todo esquecimento seja sinal da doença, mas indica que mudanças persistentes não devem ser ignoradas.
O que pode estar por trás dos lapsos de memória
Nem toda perda de memória está ligada a demência. Diversas condições clínicas podem afetar o funcionamento do cérebro e muitas delas são tratáveis:
· Deficiência de vitamina B12
· Distúrbios da tireoide
· Alterações hormonais
· Depressão e ansiedade
· Privação de sono
· Efeitos colaterais de medicamentos
A vitamina B12, por exemplo, é essencial para a proteção dos neurônios. Níveis baixos podem causar falhas de memória, cansaço e alterações de humor, e a reposição adequada pode melhorar os sintomas.
O que acontece numa consulta de geriatria preventiva
A geriatria não é uma especialidade exclusiva para idosos. Cada vez mais adultos de meia-idade buscam esse cuidado para preservar saúde e autonomia ao longo dos anos.
Na avaliação preventiva, são investigados:
· Histórico clínico e familiar;
· Qualidade do sono e do humor;
· Uso de medicamentos;
· Testes cognitivos simples;
· Exames laboratoriais para identificar deficiências nutricionais e alterações hormonais;
· Fatores de risco para demência, como hipertensão, diabetes e sedentarismo.
Quando há deficiência de vitaminas ou alterações hormonais, o tratamento é feito com dosagens individualizadas e acompanhamento médico.
Como proteger a memória desde já
Se a memória está preservada, é o momento ideal para investir na prevenção. Hábitos associados à saúde cerebral incluem:
· Praticar atividade física regularmente
· Dormir bem
· Manter alimentação equilibrada
· Estimular o cérebro com leitura e novos aprendizados
· Manter vida social ativa
· Controlar pressão arterial, colesterol e glicemia
· Evitar tabagismo e consumo excessivo de álcool
Estudos mostram que a combinação de exercícios físicos, estímulo cognitivo e controle de fatores de risco cardiovasculares está associada a melhor desempenho de memória ao longo da vida.
Na dúvida, procure ajuda!
Muitas pessoas esperam os sintomas piorarem para buscar avaliação. Mas quando o assunto é cérebro, o tempo é um fator importante.
Se você percebe mudanças na memória — mesmo que pareçam sutis — vale conversar com um especialista. O diagnóstico precoce permite tratar causas reversíveis, acompanhar a saúde cognitiva e adotar medidas que preservam independência e qualidade de vida.
Cuidar da memória é cuidar da sua história, da sua autonomia e do seu futuro.
Ylmara Chicri é médica, CRM 43170-atua na área de Geriatria há 16 anos e atende em Arcos na Ciclo Saúde Integrada. Mais informações: 37 99928 5555.
Por Dra. Ylmara Chicri | Geriatria