Era uma tarde comum no consultório quando Dona Helena, 71 anos, entrou segurando o braço do filho. Ela não sabia dizer o que estava sentindo — só sabia que "alguma coisa estava diferente." Nas últimas semanas, tinha esquecido o nome da neta, perdido as chaves três vezes e ficado confusa ao tentar pagar uma conta simples.
O filho, preocupado, mas hesitante, sussurrou antes de entrar: "Doutora, será que é Alzheimer?"
Essa pergunta eu ouço há 17 anos. E durante muito tempo, a resposta que a medicina me dava era frustrante: "Podemos suspeitar, mas vamos acompanhar." Hoje — e isso muda tudo — essa resposta mudou.
Vivemos um momento histórico
O neurologista Bruce Miller, diretor do Memory and Aging Center da Universidade da Califórnia, trouxe ao Brasil, no Brain Congress 2026, uma notícia que precisa chegar a cada família brasileira: pela primeira vez, existem tratamentos capazes de modificar o curso do Alzheimer — não apenas aliviar sintomas, mas alterar a trajetória da doença.
Mais do que isso: exames de sangue já conseguem detectar proteínas associadas ao Alzheimer entre 15 e 20 anos antes dos primeiros sinais clínicos aparecerem.
Deixa-me repetir isso de uma forma que você sinta o peso: uma pessoa com 50 anos, aparentemente bem, sem nenhuma queixa de memória, pode já ter no sangue os marcadores de uma doença que vai se manifestar aos 70 — e hoje é possível identificar isso.
Isso não é ficção científica. Isso é 2026.
Por que o diagnóstico precoce muda tudo?
Quando atendo um paciente nas fases iniciais do Alzheimer, o leque de possibilidades é completamente diferente de quando a doença já avançou. Os novos medicamentos anti-amiloides têm eficácia comprovada justamente nas fases mais precoces. Esperança tardia é uma oportunidade perdida.
O Dr. Miller comparou esse momento ao que vivemos com as doenças cardiovasculares há décadas: quando aprendemos a identificar e tratar precocemente a hipertensão e o colesterol, as mortes por infarto despencaram. O mesmo caminho está começando com o Alzheimer.
Estudos previstos para 2027 vão avaliar se é possível tratar pessoas sem sintomas — mas com acúmulo de beta-amiloide — antes mesmo de qualquer perda cognitiva aparecer. Prevenção antes do início. Isso é uma revolução.
O que você pode fazer hoje
Em 17 anos de geriatria, aprendi que a maior inimiga do envelhecimento saudável não é a idade — é a espera.
Existe uma lista de fatores que aumentam o risco de demência e que são todos modificáveis: sedentarismo, hipertensão não controlada, obesidade, depressão sem tratamento, isolamento social, tabagismo. Não são fatalidades. São escolhas — e com o acompanhamento certo, são reversíveis.
Por outro lado, a ciência é generosa com quem cuida: atividade física regular, alimentação equilibrada, sono reparador, vida social ativa e estimulação cognitiva constante protegem o cérebro de forma mensurável. O Dr. Miller foi direto: hábitos saudáveis fazem diferença em qualquer idade. E eu acrescento: com orientação especializada, fazem ainda mais.
Uma palavra para as famílias
Se você está lendo isso e pensando em alguém — sua mãe que está "meio esquecida ultimamente", seu pai que "está um pouco diferente" — quero que saiba: a intuição familiar raramente erra.
Não espere a doença se apresentar em toda a sua intensidade. Não normalize o esquecimento como "coisa da idade." O cérebro é o órgão mais precioso que temos, e ele merece a mesma atenção preventiva que damos ao coração, aos ossos, à pressão arterial.
Dona Helena saiu do consultório com um plano. O filho saiu com menos medo. E eu — como acontece em cada atendimento — saí com a certeza renovada do porquê de ter escolhido a geriatria.
Cuidar de quem envelheceu é cuidar de quem viveu. É o que me move há 17 anos. E com as ferramentas que a ciência nos dá hoje, nunca tivemos tanto a oferecer.
Agende. Avalie. Proteja.
— Dra. Ylmara Chicri | CRM 43170
Médica, atende há mais de 17 anos na Geriatria com ênfase em diagnósticos de demências, Alzheimer, Parkinson e demais doenças do envelhecimento, além de priorizar o acompanhamento de adultos e idosos para a prevenção e envelhecer saudável.
Mais informações: (37) 99928-5555.