Quem caminha pela Rua Olegário Rabelo, no bairro Brasília, nas manhãs de sábado, logo percebe a movimentação no número 455. O cheiro de comida caseira que ganha o quarteirão divide o espaço com o passo calmo de dezenas de moradores que chegam em busca de amparo. Ali funciona o Centro Espírita Bezerra de Menezes (CEBM), uma instituição que, desde 1961, fincou suas raízes em Arcos com a missão de desenvolver trabalhos de caridade e assistência social com base na filosofia de seu patrono, conhecido historicamente no Brasil como o “Médico dos Pobres”.
Hoje, no entanto, a engrenagem que sustenta as atividades da casa esbarra em um limite físico preocupante. O refeitório, espaço onde são servidas cerca de 120 refeições a cada sábado durante as atividades de Evangelização Infantil e de Adultos, precisa de uma reconstrução urgente. A demanda, que teve um aumento visível após a pandemia, superou a capacidade do local.
No comando dessa estrutura, dividindo a responsabilidade com um Colegiado Diretor de nove pessoas, está Lair Caetano de Oliveira Júnior, de 49 anos. Comerciante, casado e pai de dois filhos, Lair equilibra a rotina do comércio local com a presidência da instituição, motivado por uma trajetória que começou há 16 anos como frequentador.
“A primeira história marcante que me vem à mente é a da minha própria família”, relata Lair. “Há muitos anos, chegamos ao CEBM carregando dores, medos e uma profunda sensação de desesperança. Foi ali que encontramos acolhimento e a força para recomeçar”.
O impacto foi definitivo: a esposa de Lair hoje coordena atividades e cursos na casa, os filhos cresceram no ambiente voluntário e ele próprio assumiu a liderança do grupo.
Estrutura defasada e telhas de amianto limitam capacidade de atendimento
O sábado no centro exige uma logística complexa por parte dos voluntários. O cardápio conta com três opções de pratos, definidos estritamente de acordo com as doações recebidas ao longo da semana. Para contornar a falta de espaço e garantir o zelo pedagógico, a equipe divide o público: as crianças fazem as refeições no refeitório, onde aprendem sobre boa nutrição e convivência, enquanto os adultos precisam receber os pratos no salão de palestras.
O arranjo, embora funcional, evidencia os gargalos estruturais do prédio. O espaço físico atual já não comporta o volume de assistidos. Além do tamanho reduzido, o refeitório é coberto por telhas de amianto antigas. Na prática, isso significa que o local se transforma em um ambiente excessivamente quente durante os meses de verão e sofre com inúmeras goteiras e infiltrações no período chuvoso.
A urgência da obra se acentua pelo perfil de quem busca a instituição. De acordo com a diretoria, o público que bate à porta do Bezerra de Menezes é composto, majoritariamente, por pessoas que enfrentam vulnerabilidades materiais, dores emocionais e crises de saúde física ou mental. Além do almoço de sábado, a casa mantém uma escala densa de serviços semanais, que inclui atendimento fraterno, bazar beneficente, visitas ao asilo da cidade, a tradicional Campanha do Quilo e passes domiciliares para doentes e acamados.

Projeto de revitalização aposta na solidariedade regional para sair do papel
A campanha lançada pelo CEBM foca na reestruturação completa do refeitório para eliminar os problemas de isolamento térmico e infiltrações, permitindo que as famílias [muitas das quais levam marmitas para complementar a alimentação em seus lares] sejam recebidas com conforto e dignidade.

Como o centro não possui verbas governamentais e opera de forma totalmente voluntária, o início das obras depende diretamente do ritmo da arrecadação financeira e de materiais. A instituição ainda não fixou uma data no calendário para a inauguração, condicionando o cronograma ao volume de apoio recebido nas próximas semanas.
“Quando apoiamos a campanha de reforma, não estamos apenas construindo um espaço físico. Estamos fortalecendo um lugar onde vidas são acolhidas, famílias são amparadas e histórias de transformação continuam sendo escritas”, enfatiza Lair, reforçando que o desafio da reconstrução pertence a toda a comunidade de Arcos que acredita na união e na caridade.
Como colaborar com a obra
Os moradores de Arcos e região podem se engajar na campanha do Centro Espírita Bezerra de Menezes por meio de diferentes canais:
■ Doações financeiras (qualquer valor): Podem ser enviadas diretamente por meio da Chave PIX (CNPJ): 20.920.153/0001-64.
■ Programa Amigo Contribuinte: Opção para quem deseja ajudar a custear as despesas fixas de manutenção da casa (como água, energia elétrica e produtos de limpeza) por meio de uma contribuição mensal fixa, utilizando a mesma chave PIX.
■ Entrega de materiais: Insumos para a construção podem ser deixados diretamente na sede do Centro, localizada à Rua Olegário Rabelo, nº 455, bairro Brasília, durante o horário das reuniões públicas (terças-feiras à noite ou sábados pela manhã).
■Trabalho Voluntário: Moradores que queiram doar tempo e mão de obra, tanto para as ações da reforma quanto para os demais projetos sociais da casa, podem procurar a coordenação no local para direcionamento
■ Informações e acompanhamento: Detalhes sobre o andamento da campanha são publicados no perfil oficial do Instagram: @centroespiritabezerrademeneze.
Quem foi Bezerra de Menezes?
O nome da casa no bairro Brasília homenageia Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831–1900), figura marcante da história brasileira. Cearense de nascimento, construiu sua trajetória no Rio de Janeiro, então capital do Império, onde conciliou a vida política, atuando como vereador e deputado geral, com a prática da medicina. Ficou conhecido popularmente como “Médico dos Pobres” por atender gratuitamente famílias em situação de extrema vulnerabilidade, chegando muitas vezes a comprar os remédios com seu próprio dinheiro.
Mais tarde, Bezerra de Menezes foi reconhecido como uma das principais lideranças do espiritismo no país. Presidiu a Federação Espírita Brasileira e trabalhou pela unificação do movimento até seus últimos dias. Sua postura de acolhimento e dedicação ao próximo inspira, há mais de seis décadas, o trabalho da instituição Arcoense, que busca manter vivo esse legado de solidariedade e cuidado integral.