• 25/05/2024
05 Junho 2023 às 10h16

Superando as emoções desarmônicas

Muitos de nós, já vivenciamos em algum momento de nossas vidas ou observamos alguém próximo a nós, vivenciar situações de insatisfação pessoal, frustração, mudanças de humor frequentes, explosões de raiva, tristeza, impulsividade, teimosia, ciúmes intensos, apego afetivo, desespero, descontrole emocional, medo de rejeição, etc. E isso se deve, como nos adverte Allan Kardec na obra O livro dos espíritos, à ligação que fazemos mais à materialidade que à espiritualidade:

 

O homem carnal, mais ligado à vida corporal que à vida espiritual, tem, sobre a Terra, penas e gozos materiais; sua felicidade está na satisfação fugidia de todos os seus desejos. Sua alma, constantemente preocupada e afetada pelas vicissitudes da vida, permanece numa ansiedade e numa tortura perpétuas. (1)

 

Talvez não saibamos identificar que tais comportamentos e alterações psíquicas que podem nos acometer diariamente, pode ser um transtorno de personalidade, mais especificamente os transtornos de humor, que segundo a CID 10 - Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento (2), é a expressão do estilo de vida e do modo como o indivíduo percebe, pensa e sente, relacionado a si mesmo e na interação afetiva com os outros.

 

Vocês podem estar se questionando: “Mas ter tais comportamentos nas relações sociais, já é possuir um transtorno?” De fato, não, mas quando estes comportamentos se tornam um hábito e frequentemente as relações afetivas começam a ficar desarmônicas, alterando o funcionamento normal da afetividade, controle dos impulsos e agressividade, modos de percepção e interações sociais, levando a uma angústia anormal, persistente e ruptura pessoal/social, podemos estar diante de um quadro de adoecimento bastante complexo.

 

Trataremos mais especificamente neste momento, o Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável - Borderline, classificado pela ciência como F60.31:

 

Um transtorno de personalidade no qual há uma tendência marcante a agir impulsivamente sem consideração das consequências, junto com instabilidade afetiva. A capacidade de planejar pode ser mínima e acessos de raiva intensa podem com frequência levar à violência ou a “explosões comportamentais” ... impulsividade e falta de autocontrole. (...)

Há em geral sentimentos crônicos de vazio. Uma propensão a se envolver em relacionamentos intensos e instáveis que pode causar repetidas crises emocionais e pode estar associada com esforços excessivos para evitar abandono e uma série de ameaças de suicídio ou atos de autolesão. (3)

 

E por quê falar especificamente deste transtorno? Porque vivenciamos relações afetivas que estão ultrapassando o saudável, onde esquecemos da nossa essência e individualidade e fazemos do outro um santuário e portador de toda nossa felicidade. E o Espiritismo, com sua luz radiante, nos abre os olhos, tirando sobre eles o véu que encobre quem realmente somos, qual o nosso papel nas relações sociais e afetivas, nos oferecendo respostas das causas dos nossos sofrimentos e vicissitudes que passamos aqui encarnados na Terra.

 

O homem moral, que se eleva acima das necessidades fictícias criadas pelas paixões, tem, desde este mundo, prazeres desconhecidos ao homem material. A moderação dos seus desejos dá ao seu Espírito a calma e a serenidade. Feliz pelo bem que fez, não há para ele decepções e as contrariedades deslizam sobre sua alma sem deixar aí impressão dolorosa. (4)

 

Sueli Caldas Schubert, em sua esclarecedora obra Transtornos Mentais, também nos adverte sobre o tema:

Quando uma pessoa cultiva uma fixação mental e emocional em alguém que passa a ser responsável pela sua felicidade ou desgraça, isso pode vir a desaguar num autêntico processo obsessivo de encarnado para encarnado, podendo culminar, em casos extremos, em crime passional ou suicídio.

 

Por aí se vê o grande erro em colocar-se a própria felicidade numa pessoa. Se esta, em cujas mãos depositamos o nosso destino e que, segundo pensamos, tem a incumbência ou obrigação de nos fazer feliz, tiver outra preferência, mudar de ideia, gostar de outro, o mundo virá abaixo. (5)

 

Alguém aí já passou por semelhantes situações? Por este sentimento de não pertencimento, de sentir falta e carência interior que pode machucar tanto quanto uma dor física, levando efetivamente, em alguns casos, ao extremo grau de violência emocional e física?

 

Tais situações nos revelam que nós humanos, não conseguimos viver conoscos mesmos, não gostamos da solidão, da nossa própria companhia, de quem realmente somos em nosso íntimo, nossa essência espiritual. Por isso, muitas pessoas buscam por algo externo para suprir o interno, como diversões, prazeres, vícios e a dependência emocional, como formas desequilibradas de preencher um vazio, fugindo do confronto que o ato de estar sozinho propicia.

 

Precisamos, segundo as orientações e lições da espiritualidade, nos despertar, através do autoconhecimento e acima de tudo do conhecimento da lei Divina. Que esse prazer e felicidade deve ser algo interno, que não está no outro ou em coisas externas e sim na percepção de sermos quem somos, estejamos onde estivermos ou da forma que estivermos no momento, sentindo-nos bem com o nosso processo espiritual, entendendo que nem tudo pode estar bem, mas que tudo está certo, porque colhemos nossa semeadura.

 

Que possamos percorrer o caminho inverso em direção ao nosso íntimo, na certeza de que temos tudo de que precisamos para construir uma personalidade que se baste, que dê conta de viver bem e de ser feliz.

 

A psiquiatra, autora e palestrante Ana Beatriz Barbosa, em sua obra Corações Descontrolados, brilhantemente escreve sobre a personalidade Borderline e também menciona sobre nossas personalidades e a importância de as relações sociais serem saudáveis:

 

Somente dessa maneira, por meio do conhecimento, seremos capazes de aliviar dores, angústias, incertezas, sofrimentos e injustiças que norteiam a nossa existência. Nenhum homem é uma ilha, somos seres sociais. Existir é, portanto, navegar em águas desconhecidas, que somos nós mesmos e nossos semelhantes. Viver, sem dúvida, é navegar no mar das personalidades. (6)

 

A doutrina espírita, mais especificamente neste momento em que a humanidade vive, sob a fala de Schubert, nos impulsiona a nos conhecer mais, a termos mais força, coragem e resignação diante os desencontros e desenganos da vida e nos dá o conforto de compreender a gênese dos nossos sofrimentos.

 

Esteja certo que a doutrina lhe dirá que fomos criados para a felicidade, para o amor, para o progresso espiritual. Que o sofrimento é opção nossa a qual podemos modificar através do trabalho edificante, do nosso crescimento como pessoa, pois todos temos direito à felicidade. Não se entregue à solidão, à dor de uma saudade. Lute, trabalhe, viva! Tenha um ideal superior que alimente o seu eu. Lembre-se de que o ser humano não é o corpo – é o Espírito. Ame a si mesmo, a vida, as pessoas. Afinal, conforme Joanna de Ângelis, “a maior felicidade no amor pertence a quem ama.” (7)

 

 

Luz e paz a todos!

 

 

Iara Diniz

([email protected])

 

 

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Aos sábados: Evangelização infantil e Escola de pais às 09:30hs; às 17h Campanha do Quilo e às 18:30hs Mocidade espírita.

 

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Referências:

 

  1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Livro IV. Capítulo 1, questão 941, pág. 329.
  2. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10: Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas. Pág. 196, 1993.
  3. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10: Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas. Pág. 200-201, 1993.
  4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Livro IV. Capítulo 1, questão 941, pág. 329.
  5. SCHUBERT, Suely Caldas. Transtornos mentais: uma leitura espírita. Intervidas, São Paulo, 2012. Capítulo 4, pág. 82.
  6. SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Corações descontrolados: ciúmes, raiva, impulsividade – o jeito borderline de ser. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. Cap.1, pág. 23.
  7. SCHUBERT, Suely Caldas. Transtornos mentais: uma leitura espírita. Intervidas, São Paulo, 2012. Capítulo 4, pág. 89.

Fonte da imagem: Disponível em https://pixabay.com/pt/users/geralt-9301/

 

 

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