Como usar a inteligência artificial nos estudos sem deixar de aprender? Esse foi o desafio enfrentado por 29 estudantes do IFMG Campus Arcos no Hackathon Social 2026, realizado nos dias 26 e 27 de outubro pelo campus em parceria com o Vuei e o SEBRAE. Divididos em seis equipes, eles criaram soluções para o uso irresponsável da IA em trabalhos e atividades escolares, um problema que conhecem de perto.
A vencedora foi a equipe Prompt com Consciência, com o projeto MindVerse AI. A proposta recebeu 94 pontos de cada um dos três avaliadores, a única nota unânime da competição.
Um desafio, seis equipes
A pergunta que guiou as equipes foi: como usar a IA nos estudos e no trabalho com responsabilidade, sem deixar que ela pense por nós? O texto do desafio apontava situações comuns, como entregar trabalhos feitos inteiros pela IA, esconder seu uso, confiar em dados inventados, expor informações pessoais e deixar de exercitar a escrita e o raciocínio.
A proposta não era proibir a ferramenta, e sim aprender a usá-la com critério: saber quando usar, como usar, como conferir e como declarar o uso.
"Nesta edição de 2026, estamos com a missão de fazer com que os jovens reflitam sobre a inteligência artificial e o seu devido uso. Não apenas como cópia, como ferramenta para responder questões prontas, mas como uma metodologia de refletir, de ajudar no ensino", explica a professora Anelisa Gregoleti, membro da Comissão Organizadora.
Participaram 16 estudantes do Técnico Integrado em Administração, 12 do Técnico Integrado em Mecânica e um graduando de Engenharia Mecânica. A Comissão Organizadora montou equipes mistas, sempre com alunos de diferentes cursos e de anos diferentes.
"É muito bacana assistir à integração entre diferentes turmas e diferentes níveis. É uma oportunidade que os alunos têm de se conhecerem e de trocar conhecimento", destaca a professora Nayara Teixeira dos Santos, também da Comissão Organizadora.
Em relação à primeira edição, de 2025, o formato mudou. O evento passou de sexta a domingo para segunda e terça-feira, e as equipes trabalharam sem mentoria, contando apenas com o próprio raciocínio, coerência com o tema da edição.
Ao final, cada grupo apresentou um pitch à banca formada pelos professores Fábio Costa, Fernando Geraldo e Cássia Campos. Os critérios foram foco no problema e impacto (peso 4), além de viabilidade, criatividade, coerência no uso da IA e apresentação (peso 3), somando até 100 pontos.
O nível das propostas chamou a atenção dos avaliadores. "Os meninos são muito jovens, mas mostraram muita maturidade. Estavam municiados de informações, de dados, tinham propriedade naquilo que estavam falando", avalia o professor Fernando Geraldo. O professor Fábio Costa conta que ficou "abismado" com "a maturidade, a disposição, a construção de todos os trabalhos".
Para a professora Cássia Campos, o critério que mais pesou foi a aplicabilidade. "Pude observar que eles estudaram pra fazer e pra falar. Todos eles tinham base, tinham dados", afirma.
O pódio
1º lugar: MindVerse AI, equipe Prompt com Consciência (94 pontos). Isaac Fernandes Silva (aluno do 3º ano do Curso Técnico Integrado em Mecânica), Pedro Henrique Almeida Martins (aluno do 1º ano do Curso Técnico Integrado em Mecânica), Emanuel Cortez Gonçalves (aluno do 1º ano do Curso Técnico Integrado em Administração), Thayná Moura (aluna do 2º ano do Curso Técnico Integrado em Administração), e Maria Eduarda Teixeira Guimarães (aluna do 2º ano do Curso Técnico Integrado em Administração), criaram uma plataforma de jogos educativos de Física e Matemática para o ensino médio. O estudante escolhe um universo que o inspira, como um jogo, filme ou série, e a IA monta uma aventura com mundo e personagens originais. Para avançar de fase, é preciso resolver equações e problemas; a IA oferece pistas, mas os desafios finais são vencidos sem ajuda.
Equipe Prompt com Consciência, 1º lugar com o MindVerse AI, na cerimônia de premiação.
Thayná Moura, que já tinha conquistado o terceiro lugar na edição de 2025, conta que a equipe demorou a acreditar no resultado. "Foi trabalhoso construir. A gente teve que modificar quatro vezes, porque percebeu que a ideia era muito semelhante à dos outros", lembra. A solução veio ao "unificar o que os jovens mais procuram, mais fazem, de uma forma educativa".
2º lugar: Quack Edu, equipe Patos Mergulhões (91,67 pontos). Alice Maria de Faria e Borges (aluna do 2º ano do Curso Técnico Integrado em Administração), Álvaro Martins da Silva (aluno do 3º ano do Curso Técnico Integrado em Mecânica), Elisa Luiza Silva (aluna do 2º ano do Curso Técnico Integrado em Administração), João Antônio Arantes de Andrade (aluno do 1º ano do Curso Técnico Integrado em Mecânica) e João Pedro Teixeira Fernandes (aluno do 1º ano do Curso Técnico Integrado em Mecânica), propuseram uma formação em ética digital e uso consciente da IA. A trilha passa por aprender, praticar, avaliar e certificar, com um painel para o professor orientar o uso em vez de apenas fiscalizá-lo. O projeto prevê um piloto gratuito como ação de extensão no campus e recebeu a maior nota individual do evento: 97 pontos.
Equipe Patos Mergulhões, 2º lugar com o Quack Edu, ao lado da Comissão Organizadora.
"O momento mais desafiador foi no segundo dia, quando a gente teve que mudar completamente nossa ideia, porque percebeu que estava muito genérico. A gente saiu um pouco fora da caixinha e, felizmente, deu certo", relata Álvaro.
3º lugar: JuntAI, equipe Players (86 pontos). Víctor Hugo Dionísio Naves (aluno do 2º ano do Curso Técnico Integrado em Mecânica), Raphael Bernardes Gomes Santos (aluno do 1º ano do Curso Técnico Integrado em Mecânica), Jonas Eduardo Silva Faria (aluno da Engenharia Mecânica), Isabella Rodrigues Gundin Silva (aluna do 1º ano do Curso Técnico Integrado em Administração) e Sofia Emanuelle da Silva Nogueira (aluna do 2º ano do Curso Técnico Integrado em Administração), desenvolveram um tutor socrático, que guia o raciocínio do aluno sem entregar o gabarito. O professor acompanha a turma por um painel que mostra os conteúdos com mais erros. Na pesquisa da equipe, cerca de 7 em cada 10 estudantes disseram usar IA nos estudos, e a maioria afirmou nunca conferir o que ela responde.
Equipe Os Players, 3º lugar com o JuntAI, ao lado da banca avaliadora.
"Muitas vezes a gente passa por momentos de estresse, e é muito bom poder ver que a gente foi recompensado por tudo. Mesmo com tantos trabalhos muito bons das outras equipes, a gente conseguiu se sobressair", comemora Raphael.
As outras propostas
Três projetos completaram a disputa. O ImpulsoIA, da equipe Ócios do Ofício (João Junio Oliveira Jesus Silva, Júlia Vieira de Andrade, Lavínia Vitória Teixeira Costa e Melissa Rodrigues Gundin Silva), une um aplicativo em "modo guia" a aulas e monitorias presenciais.
O Broto IA, da equipe JAMED (Eloah Percílio Luiz Silva, João Pedro Sousa Zuquim, Ana Livia Amorim Nascimento, Dérik Miguel Castro Afonso e Mariana Vitória Duarte Frias), integra ao Moodle uma IA que explica a matéria e dá pistas. O aluno faz crescer uma árvore virtual e troca os pontos por benefícios escolares, como reposição de atividades.
O Mente Ativa, da equipe Transfor Tech (Isabella Aparecida Lopes Soares, Janaína Bernardes, Ana Luíza do Vale, Maria Clara Diniz Prates e João Gabriel Rodrigues Soares), conecta instituição, alunos e professores. Na plataforma, uma coruja conduz o estudante com perguntas, e recursos de acessibilidade adaptam as atividades.
De volta ao desafio
Parte dos participantes já tinha disputado a primeira edição. "No Hackathon de 2025 eu tive muita dificuldade, porque pensava que era uma coisa que fugia muito da minha realidade. Com esse ano de aprendizado no IFMG, consegui me desenvolver bem mais para entregar um resultado melhor", conta Álvaro.
Elisa Luíza Silva, colega de equipe dele, recomenda "muita calma, muita paciência, muita perseverança" a quem vai participar pela primeira vez. Não é só para ganhar prêmio. É também uma certificação de que você seria um bom empreendedor, ainda mais para a gente que está na Administração".
Isaac Fernandes Silva, do 3º ano do Técnico Integrado em Mecânica, voltou e saiu campeão com a MindVerse. "Ano passado eu vim muito limitado. Esse ano eu vim pensando mais, buscando preparação. A gente tem que perceber que no Hackathon tem que pensar fora da caixa", diz. A dica dele para os estreantes: "Tenha paciência, porque não é fácil, mas é tudo muito diferente. Então vale a pena".
Premiação e próximos passos
A Comissão Organizadora entregou à equipe campeã um tablet com 4 GB de RAM e 64 GB de armazenamento. O segundo lugar recebeu uma Amazon Echo Dot (5ª geração), e o terceiro, um relógio smartwatch Revenger RG-W78. O evento teve patrocínio da Franco Imobiliária, do Sicoob Arcomcredi e da Rádio Alternativa 87,9 FM.
Para Aryadne Barroso, consultora do SEBRAE que aplicou a metodologia do evento, a iniciativa "tem muito a contribuir, principalmente quando falamos de que esses jovens estão saindo mais preparados para encontrar os desafios e identificar que aqueles desafios podem ser superados".
Os avaliadores também deixaram recados para que os projetos saiam do papel. Fernando Geraldo aconselha as equipes a continuarem "estudando, aperfeiçoando, pesquisando" e a espalharem os resultados, "para que esse conhecimento possa chegar aos colegas, a outros jovens". Fábio Costa resume: "Eles têm que lutar para que aquilo seja uma coisa efetivada, que crie consciência sobre a importância da inteligência artificial. Se esse projeto for adiante com essa perspectiva, ganhou, valeu a pena".
"O desafio era enorme: como utilizar a inteligência artificial de forma responsável na produção de trabalhos e na resolução de exercícios no dia a dia escolar. Foi um desafio e, ao mesmo tempo, uma reflexão para os nossos alunos", conclui a professora Nayara Teixeira dos Santos.
Participantes, banca avaliadora e organização do Hackathon Social 2026 no IFMG Campus Arcos.
Vídeos do evento
Os bastidores e as apresentações do Hackathon Social 2026 podem ser vistos nos vídeos publicados no Instagram:
1. Vídeo 1: os bastidores do primeiro dia, com a Comissão Organizadora e a consultora do SEBRAE
2. Vídeo 2: o pódio, com as equipes premiadas
3. Vídeo 3: a avaliação da banca, com o professor Fábio Costa
4. Vídeo 4: a avaliação da banca, com o professor Fernando Geraldo
5. Vídeo 5: a avaliação da banca, com a professora Cássia Campos
Por: Nayara Teixeira dos Santos